domingo, 28 de fevereiro de 2010

Um ano imperfeito

"Como dizia aquele francês, criador do mais irresistível clichê destas plagas: "Brasil, terra de contrastes".
De um lado, a abundância da Mulher Melão, da Priscila BBB e da Nicole Paniquete, três candidatas à musa deste carnaval. De outro, a fila esquálida de modelos nas semanas de moda. Umas com tanto, outras com tão pouco. Ei, e se a gente trocasse de lugar as passarelas do samba e da moda?
As mulheres-hortifrútis e seus derivados desfilariam, sei lá, no SPFW. Quadris pra mais de metro esgarçam as silhuetas esguias do outono-inverno. As coxas solidificadas à base de muito leg press e injeção de gás carbônico apavoram a fila. Os peito espremidos nas roupinhas manequim 36 sacodem para, enfim, a alegria dos fotógrafos. O estilista chora.
Enquanto isso, no Sambódromo, as meninas magrinhas fariam carão em frente à bateria de uma escola de samba. O peso do espaldar curva o corpo frágil, prejudicando a evolução. O tapa-sexo desta vez tapa muito mais que o sexo, já não há mesmo muito o que ver nas ancas impúberes. Os braços finos saúdam o povo, atônito, e pedem passagem (para Paris). O carnavalesco chora.
Chooora, não vou ligar: o que modelos pesos-pena têm em comum com quadris de 120 centímetros? Susan Orbach responde.
Peraí, Susan quem? É do Brazil's Next Top Model? Tava na Record? Fez Malhação? Não. Essa inglesa é uma das melhores pensadoras de questões femininas. Psicoterapeuta, ajudou a princesa Diana a escapar da bulimia. Autora de vários estudos sobre o corpo, foi consultora da "campanha pela beleza real" da Dove, aquela que mostra mulheres de vários tamanhos e cores e seus anúncios.
Em seu livro mais recente, Bodies (ainda sem tradução por aqui, mas numa Amazon perto de você), Susan investiga o que está acontecendo com o meu, o seu, os nossos corpos. Com os corpos subfaturados da moda e os superfaturados da avenida. Um e outro, reflexo do mesmo problema, que ela resume numa frase: "Nos últimos 30 anos, passamos a ver o corpo em que vivemos como um corpo que poderia e deveria ser perfeito".
O que é perfeição? Depende. Na moda, é o que deixa a menina sem comer para continuar magríssima. Na avenida, é o que faz a mulher comer ração humana no café da manhã, clara de ovo no almoço e nada no jantar, para ficar bombada. É, sempre, aquilo que você não é - e que, diabos, cisma em tentar ser. É, afinal, o que provoca uma insatisfação permanente com o próprio corpo.
Como ainda é fevereiro e esta é a primeira TPM do ano, ainda está em tempo: um ótimo (e imperfeito, no melhor sentido) 2010 pra você".
Editorial da Revista TPM, de fevereiro de 2010.

Eles foram para Petrópolis

"Ivan,

Há um exagero de maio em São Paulo. Fico brincando de descobrir o que sobrou da antiga Avenida Brigadeiro Luis Antônio, que desde que me lembro por gente subi e desci, rumo a endereços vários. Percorro, com antigo encantamento, as avenidas debruadas de casas rodeadas de verde, gramados, jardins, chorões despencados. Tão São Paulo! A luz coada, a finura do ar, o frio bom e estimulante.
Num mundo que mudou tanto, tão outro eu mesmo, quase fico reconhecido de reencontrar os antigos marcos. A rua em que eu ía à piscina, todas as manhãs, a grande igreja quieta, um casarão que achava bonito e que amarelou, envelheceu, perdeu a antiga solenidade. O cinema que vi inaugurar, grã-fino e suntuoso, é hoje um cinema de bairro, com um jeito pobre e suburbano. Recortados contra o céu, na surpresa de uma esquina, os minaretes finos da casa do turco e em frente o bangalozinho de tijolos vermelhos que me abrigou na adolescencia. Tenho saudades? Não tenho.
Sou turista do mundo, na cidade em que nasci, numa tarde sem programa, nem pedaço de rua que já quase não reconheço. Gosto de revirar dentro do peito as emoções que me voltam desses antigos caminhos, com dores antigas e antigas alegrias, que já perderam umas e outras a sua força.
Mas me assusto, de repente, com a ruazinha estreita que, no meu tempo, não chegava até aqui. Entro por ela, espantado de que as casinhas geminadas, com o jardim anão, na frente, continuem tão iguais. A luz, o céu, o frio da tarde, as pedras desiguais da rua, a torneira de regar jardim, o gramado, a gradezinha, o terraço em que só cabia uma poltrona de vime e um antigo pé de samambaia, minhas duas janelas. Há mais de vinte anos virei aquela esquina para nunca mais.
Paro diante de um senhor que brinca com o neto, na minha porta, no meu terraço. Rua, jardim, terraço, são tão pequenos que não preciso dar explicações. Não, não estou procurando ninguém, não vendo produtos, não vim receber nenhuma prestação.
Desculpe, era só saudade. Saí daqui com um menino igual a esse, os pés menores do que esses paralelepípedos em que um dia, deslumbrado, o vi tropeçar os primeiros passos. É, tomava banho de mangueira, equilibrado nessa mesma torneira - como está polida! -, e era posto a secar sobre a grama.
Era uma beleza de menino! Ficou homem e me roubou um pouco, crescendo, daquela alegria de ter um menino, que é mais um brinquedo do que gente. Ainda não me acostumei com a idéia de que uma criança encaracolada que a gente borrifa de água e deixa secar na grama, antes da sopinha da tarde, de repente cresce por conta própria, faz a barba, bota a chave da casa no bolso, fuma, trabalha, sofre. Parece meio esquisito. Do homem e do menino a gente gosta igual, só que do menino resolve mais problemas. Virei aquela esquina e desemboquei 25 anos para trás. Não contava chegar tão longe.

Mario Sergio"

(Eles foram para Petrópolis - correspondências entre Ivan Lessa e Mario Sergio Conti).

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Homenagem às meninas

Don´t fall in love.
Rise in love!

Pra dar risada

CURSO SÓ PARA HOMENS - INSCRIÇÕES ABERTAS - "VAGAS LIMITADAS"
Devido à complexidade e dificuldade de assimilação dos temas, os cursos terão um máximo de 08 (oito) participantes por sala. As inscrições estarão abertas durante a próxima semana.


SERÃO OS SEGUINTES TEMAS:
TEMA 1 - Como se enche as fôrmas de gelo. (Passo a Passo, com apresentação de slides).

TEMA 2 - O rolo de papel higiênico: será que nasce no porta-rolos? (Mesa redonda)

TEMA 3 - É possível urinar levantando a tampa e sem respingar no vaso? (Práticas em grupo)

TEMA 4 - Diferenças fundamentais entre o cesto de roupa suja e o chão. (Desenhos e gráficos esclarecedores)

TEMA 5 - A louça do almoço: levita sozinha até a pia? (Exemplos em vídeo)

TEMA 6 - Perde-se a identidade se não tiver na mão o controle remoto? (Debate com um psicólogo)

TEMA 7 - Fazer a mala: incompetência nata ou incapacidade mental progressiva? (Iniciação lúdica)

TEMA 8 - Como aprender a encontrar coisas, começando por procurar no lugar certo em vez de remexer a casa toda aos gritos? (Passo a passo, e exercícios de memorização)

TEMA 9 - Oferecer flores à namorada não é prejudicial à saúde. (Gráficos e montagem audiovisual)

TEMA 10 - Os verdadeiros homens também pedem orientações a estranhos quando se perdem. (Depoimentos verídicos de comprovados machos e conferência)

TEMA 11 - O homem no lugar de co-piloto: é geneticamente possível não dar compulsivamente palpites durante as manobras de estacionamento! (Palestra e meditação em grupo)

TEMA 12 - Aprendendo a viver: diferenças básicas entre mãe e esposa. (Aula virtual com prática presencial)

TEMA 13 - Como ser acompanhantes em shoppings, sem protestar. (Exercícios de relaxamento e autocontrole)


TEMA 14 - Como lutar contra a atrofia cerebral: recordar aniversários, outras datas importantes e telefonar quando se atrasa. (Dinâmica em grupo)

Encerramento do curso e entrega de diplomas aos sobreviventes.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Que sistema é esse?

Trecho da CPI do sistema carcerário

"Os Juízes de Execução Penal, com raríssimas exceções, não realizam inspeções como determina a Lei de Execução Penal. O Promotor não faz visitas, também determinadas na mesma lei, e a Defensoria Pública não dispões de estrutura material e humana para acompanhar a execução penal.
O resultado desse conjunto de carências e omissões é milhares de presos provisórios sem julgamento, sentenciados que já cumpriram pena ou que já adquiriram o direito a progressão de regime, todos trancados em estabelecimentos apodrecidos e outras tantas situações ilegais e desumanas.
A deficiência na assistência jurídica é um crime contra a humanidade, pois agride um dos mais importantes direitos do homem: a liberdade. Além disso, aumenta também os custos do Sistema pagos pelo contribuinte. Também dificulta aos presos provisórios, enquanto detidos em delegacias, cadeias públicas ou centros de detenção provisória, o acesso ao estudo, ao trabalho e à prática esportiva, medidas fundamentais no processo de ressocialização.
A falta de trabalho e de estudo repercute novamente, e de forma marcante, no direito à liberdade do preso e no bolso do contribuinte que paga a conta, uma vez que não trabalhando nem estudando, o preso não diminui a pena, passando mais tempo atrás das grades, implicando mais despesas para o estado.
Mantendo presos de forma desnecessária em ambientes impróprios, sem assistência jurídica e acesso às políticas de ressocialização, vítimas da omissão dos operadores do direito criminal e penitenciário, o estado favorece o crime organizado, que agradece pelo exército de pessoas simples, deixadas à sua disposição e aos seus legítimos interesses".